sábado, 12 de março de 2011

MEU TIME É A MINHA PÁTRIA - Texto da Nova edição da Beleza Bahia

Gentes.

Saiu a nova edição da Revista Beleza Bahia, para a qual eu tenho o prazer de escrever duas colunas. Uma se chama Belezas Inusitadas, cujo texto está agora disponível em http://www.artedoespectador.blogspot.com/.

O texto abaixo é da coluna de futebol. Quem se interessar em conhecer a revista, pode acessar o link: http://www.belezabahia.com.br/site_antigo/web/revista/index.html. Ainda não tem a edição nova (com Cláudia Leite na capa) mas em breve, com certeza estará. Você pode conferir as outras edições. Chega de blablabla. Vamos ao texto:


MEU TIME É A MINHA PÁTRIA.

Quando, numa discussão sobre futebol, alguém diz que não entende como um torcedor do Vitória pode não torcer pelo Bahia em campeonatos nacionais, em situações em que o time enfrenta times do Sul e Sudeste e vice-versa, a gente percebe logo que essa pessoa não é um torcedor fanático e, portanto, não consegue identificar – nem na prática, nem na teoria – o verdadeiro sentido de fazer parte da torcida por um time de futebol.

O discurso de defesa da territorialidade a partir do ponto de vista geográfico, levando em consideração nossa organização político-espacial (a divisão do país em regiões e estados), deixa de considerar, logo de cara, outra possibilidade de organização social e cultural. Uma forma de organização escolhida pelo próprio sujeito, que se organiza sobre outras lógicas, outros pontos de vista, outros parâmetros e que diz respeito, portanto, a outras dimensões da vida particular e coletiva.

Nascido em determinada região ou estado, a pessoa – mesmo que venha a morar em outras cidades – terá sempre esta identificação com o lugar natal. Esta informação está lá, impressa em seu documento de identidade. O que é muito bom, porque revela informações importantes de sua genealogia, de sua cultura, de seus ancestrais e suas histórias. Mas, esta forma de nos identificarmos, é externa e, mais que isso, anterior à pessoa. Ela não envolve, em nenhuma medida, o seu poder de decisão. Seu documento de identidade identifica apenas uma parte dela. E acreditar nesta identificação como sendo a única possível ou mesmo a mais importante é uma postura arriscada, que reflete o pensamento de uma corrente que vê apenas uma parte da história.

Claro que eu tenho cá minhas questões com as diferenças de oportunidades entre as regiões do Norte-Nordeste e Sul-Sudeste. Sou atriz e sei o quanto o eixo Rio – São Paulo não só monopoliza boa parte das oportunidades, como impõe seus padrões para o restante do país como sendo o padrão de qualidade. Isso no mundo acadêmico, editorial, de moda, enfim, nas mais diversas dimensões. E sei que isso acontece também no futebol, Leia a revista Placar e veja que ela trata quase exclusivamente dos times destes dois estados, com exceções, talvez, para os times mineiros e gaúchos. Ela pode se defender com o argumento de que são os times com melhores campanhas na primeira divisão do campeonato brasileiro, mas a gente sabe que uma coisa leva a outra e que a atenção de fato é maior para os maiores times, das maiores cidades, dessas que não são as maiores (em termos de expansão territorial), mas sem dúvida funcionam como ‘as mais importantes’ regiões do nosso país. Importantes do ponto de vista da produtividade e do capital que geram. Ora, o mundo é muito mais do que isso. Ainda bem.

É nesta hora que eu pergunto: não seria o comportamento do torcedor doente, fanático, justamente a maior resistência contra este modelo que nos impõe uma identidade arbitrariamente, sem que ao menos sejamos consultados? Torcer contra o Vitória e pelo Palmeiras, contra o Bahia e pelo Coritiba, mesmo você sendo baiano, não seria justamente dizer que o critério político-geográfico, nestas circunstâncias, não quer dizer absolutamente nada e nem sequer serve como ponto de referência? O entrega-entrega da final do campeonato brasileiro foi um grande exemplo da força da identificação com o time em contraste com a identificação do estado. Palmeirenses e são paulinos gritavam nas arquibancadas: Entrega! Entrega! Lamentavam o gol do próprio time, comemorando o gol do adversário. Esquizofrenia? Não. Apenas a força de combater o inimigo como uma das formas mais eficazes de afirmar a mim mesmo.

Quando desconsideramos estas questões, por mais que os politizados de plantão insistam em dizer que é ignorância política, pode ser justo o contrário. Pode ser o mais nobre e politizado dos comportamentos democráticos: a escolha. EU escolho os critérios de importância para MEU posicionamento. EU escolho torcer pelo MEU time. Eu escolho que a minha relação íntima e pessoal como o clube do meu coração é muito mais importante do que a relação político-geográfica que querem me fazer crer ser mais inteligente do que minha escolha emocionada e passional. Eu sou muito mais do que diz o meu Registro Geral de identidade. Eu sou muito maior do que um documento.

Não há nada mais libertador do que a torcida incondicional a um time. Somos livres porque, mais do que ser torcedores do nosso time, somos nosso próprio time. E no fundo, no fundo, torcer contra o clube inimigo, mesmo sendo ele meu conterrâneo é assumir, de outro ponto de vista, a própria naturalidade, porque nos relacionamos com o nosso estado não apenas de forma burocrática e oficial (ditada pela frieza da minha certidão de nascimento), mas a partir de seus times de futebol, instituições, muito mais humanas do que cartórios e fóruns.

A relação com os times, que o preconceito dos intelectuais talvez não permita compreender como sendo uma possibilidade relevante de existência coletiva, nos permite ultrapassar os limites da racionalidade e tocar o imponderável da existência. Meu time é a minha pátria. Meu time é a melhor parte de mim. Meu time sou eu.